2 de setembro de 2010

Recruta Zero (Beetle Bailey)

 

60 anos de Recruta Zero

 50  60 anos de preguiça e insubmissão. Antes de M.A.S.H. Antes de Johnny Vai à Guerra. Antes de qualquer filme sobre Vietnã. Antes de Munro.

(Interessante como o texto se contradiz; afirma que Zero nunca foi uma tira de vanguarda para, logo em seguida, citar exemplos de atritos causados por estar fora da média. Exatamente por não se ater a modismos, que deixaram irrevogavelmente datadas tiras como Dilbert e Doonesbury, é que o Recruta Zero acabou se impondo a eles, inclusive, muitas vezes, antecipando tendências, como a sua própria premissa, ainda em tempos de patriotismo e muito antes do antimilitarismo virar bandeira – vide parágrafo anterior.)

Estão sorteando uma tira original, e você pode ajudar a escolher as melhores de todos os tempos. A minha favorita é aquela em que um general visitante pergunta qual era o esporte favorito dos soldados, e diante da resposta — “correr atrás de mulheres” –, replica se aquilo não sujava a imagem do quartel. A resposta: “esse vem em segundo”.

2 de setembro de 2010

Entendo que estamos quites

No último final de semana, o Alexandre Soares Silva me disse que o JP Cuenca não gostava dele por culpa minha; segundo o Alexandre, eu teria dito que o JP Cuenca não sabia colocar as vírgulas (ou crase, sei lá) e ele repetiu isso num texto, o que teria enfurecido o cronista.

Como a culpa por espalhar que eu er esquerdista também pode ser atribuída a um texto do Alexandre, entendo que, com isso, estamos quites.

26 de agosto de 2010

Como publicar erotismo e (não) morrer na praia

(Conforme prometido…)

Quando comecei a leitura de Maria Erótica e o Clamor do Sexo, esperava que fosse uma sequência de A Guerra dos Gibis, narrando as dificuldades da implementação de uma indústria de histórias em quadrinhos no Brasil, onde os problemas iniciais (preconceito contra novidade, inimigos comerciais e políticos, falta de insumos durante a guerra) seriam substituídos por problemas típicos do período que cobre, 1964-1985, entre eles a censura.

Gonçalo Junior fez mais do que isso: escreveu quase um dossiê sobre as complicações de se publicar erotismo no Brasil, com foco específico nos anos da ditadura militar. A publicação de quadrinhos eróticos dispara, mas não conduz o assunto ao longo de todo o livro.

Originalmente pensado como dois volumes, Maria Erótica foi publicado como um só livro no qual há claramente duas histórias fechadas: o surgimento e a queda da Edrel e Grafipar, editoras que tematizam cada metade da leitura: as dificuldades impostas pela censura e, paradoxalmente, as dificuldades advindas da abertura. O livro não ficou nem pesado, nem mais caro do que seriam dois volumes, nem heterogêneo — e há um gancho e claro fio condutor da primeira para a segunda parte: Claudio Seto, que participou de ambas como artista e editor.

A primeira metade é densa. Para contextualizar a criação da Edrel por Minami Keizi, o texto passeia pelos problemas da integração & adaptação dos imigrantes japoneses no interior de São Paulo (desmentindo a tese de que “o Brasil receber bem qualquer um”, em face das hostilidades), pelos problemas de distribuição de impressos fora das capitais e pelo histórico de se publicar erotismo no Brasil; o capítulo Sexo é um Bom Negócio é uma retrospectiva relativamente curta, mas cobre muito bem e coloca em perspectiva o mercado que Minami encararia; a mim, lembrou muito o que Gay Talese fez em A Mulher do Próximo, de forma mais extensa.

O clímax vem perto do final, quando se concentra nos embates da Edrel, já com a produção engrenada, contra o governo. A partir de 1970, a leitura é dolorosa como o terço final de O Anjo Pornográfico, pois não há redenção: somente proibições, recolhimentos em banca, burocracia insana. Incrível como Minami Keizi tinha paciência para fazer o jogo de submeter originais para censura prévia, ressubmeter originais para aprovação, solicitar a resposta sobre edições já enviadas, informar sobre tiragens apreendidas. Foi a primeira vez em que eu vi um livro que explique claramente como funcionava o esquema da censura prévia – ao invés de dizer somente: “a partir de então, os materiais tinham que ser enviados para Brasília para censura prévia”, sem explicar como era essa censura, como era o impacto para o mapa de lançamentos, como eram as negociações, como aconteciam as apreenções, como se as driblava.

A impressão que fica é que ninguém nunca se preocupou em explicar isso no detalhe. Fala-se apenas que havia censura e que isso “amputou o pensamento de uma geração” e só. É como na abertura desse documentário dos Dzi Croquetes, quando um monte de gente diz que “houve o AI-5 e censura e ninguém podia pensar mais nada”, como se tivesse descido um anjo dos céus e invadido a cabeça das pessoas. Maria Erótica explica detalhadamente como a tal repressão se dava, graças aos cuidadosos registros de Minani.

Curiosamente, o mau estar do primeiro volume não é totalmente aliviado pela sensação de liberdade que a abertura dá, no segundo volume. A maneira mais ou menos rápida como se deu a retirada da censura — basicamente entre 1978 e 1980 — acabou criando solavancos para as editoras de sexo então estabelecidas, graças à invasão de revistas baratas que exploravam o filão do explícito.

O grande momento do segundo volume é quando Farid, o editor da Grafipar, o mesmo que anos antes estava em Brasília lutando para fosse possível publicar mais de um mamilo por foto, pede que se gradue a liberalização, para ter tempo de ajustar seu negócio à entrada de novos editores. Ibrahim Abi-Ackel, que sucedeu Armando Falcão no ministério da justiça, estava certo quando disse que a onda inicial de pornografia causaria impacto, deixaria de ser novidade em breve. É de ironias assim que se faz a história, pois nem todos os editores tem sensibilidade para discernir a fina linha entre liberdade e libertinagem, como bem caracterizou Millôr Fernandes:  ”uma imprensa que pensa ser liberta quando está, realmente, sendo apenas pornográfica”

O segundo volume se equipara ao primeiro ao delinear como era a vida em Curitiba (sede da Grafipar), como um mascate árabe criou uma editora de expressão e, particularmente, por corrigir a importância da Grafipar para os quadrinhos: eu sempre achei que a grande editora que levantou os quadrinhos nacionais na época da abertura tinha sido a Vecchi: o editor Otacílio descobriu e contratou muita gente, mas a própria migração para Curitiba de artistas como Watson Portela e o volume de páginas compradas por mês indica onde estava a melhor perspectiva de trabalho. A Grafipar organizou e manteve um núcleo de produção maior.

Se o grande problema da Edrel foi a censura, a Grafipar teve que enfrentar a hiperinflação. Ainda que a segunda parte termine com a derrocada da Grafipar, após tentativa de publicação da Penthouse no Brasil, o segundo volume guarda a redenção da abertura: os capítulos finais são um impressionante enfileiramento de fatos que noticiavam a volta da democracia, como se o tal anjo punitivo estivesse sendo banido. Do “tiro no coco” do presidente Figueredo à primeira edição da revista Chiclete com Banana, passando pela primeira Playboy a chegar nas bancas com esse título (ao invés de Revista do Homem), pelo relatório Tortura Nunca Mais e pela tanga do Gabeira, está tudo ali.
  
É um livro para ficar perto da trilogia do Elio Gaspari, do Pasquim do Sergio Braga, dos relatos de exilados, enfim, da bibliografia essencial – tipo, de indicar na faculdade — para compreender o curto período entre a censura e a abertura, como se perdeu e se retornou à liberdade de imprensa no Brasil recente.

19 de agosto de 2010

Vercingetorix, ou aldeia global

Café da manhã dos campeões.

18 de agosto de 2010

Resenha em breve aqui

Eu vi primeiro.

17 de agosto de 2010

Melomania

Domingo valeu encarar o vento frio e princípio de chuva para ver  Terrance Simien and the Zideco Experience no Bourbon Street Fest de frente, ou melhor, de costas para a praia do Arpoador — quanto tempo fazia que eu não via um zideco? Desde o último Jambalaya Jazz Festival, pelo menos, e hoje tem o concerto de 70 anos da Orquestra Municipal Brasileira, no recém-reinaugurado Theatro Municipal. Obrigado, Anahi!

12 de agosto de 2010

France toujours

Entre os Muros da Escola é a versão século XXI de O Pequeno Nicolau (a parte da sala de aula).

11 de agosto de 2010

Bomba! Bomba! Bomba!

A Guerra dos Gibis 2

Chegou nas livrarias nesse final de semana (já em venda via internet) Maria Erótica e o Clamor do Sexo, o segundo volume do projeto A Guerra dos Gibis, no qual Gonçalo Junior historia a implantação da indústria dos quadrinhos no Brasil, particularmente sob a ótica dos problemas enfrentados. Este livro aborda duas décadas, entre 1964 e 1985.

Se no primeiro volume, A Guerra dos Gibis, os quadrinhos enfrentam a desconfiança de editores em relação ao novo e são vítimas do fogo amigo entre empresários do ramo editorial — atribuir a delinquência juvenil à Hqs era uma ótima maneira de desqualificar o competidor perante o mercado –, nesse, alavancados pela Revolução Sexual, os quadrinhos eróticos têm que sobreviver à perseguição da censura, que enquadrara a pornografia como problema de segurança nacional.

Um terceiro volume, cobrindo de 1985 até os dias de hoje, está planejado.

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Antes de criar The Spirit, Will Eisner era sócio de um estúdio que produzia história prontas em massa, atendendo uma então crescente demanda de mercado. Todo tipo de pilantra tentou fazer dinheiro publicando revistas em quadrinhos naqueles tempos, como conta o livro Men of Tomorrow. Victor Fox, talvez o maior deles, convenceu Eisner a criar cópias descaradas do Batman e do Super-Homem para sua editora, mas tão absurdamente descaradas que sofreu um processo legal que o proibiu de levar adiante os personagens.

Durante décadas, Will Eisner, depoente convocado pela defesa no processo, sustentou que, apesar dos alertas de seu sócio Jerry Iger sobre o quanto aquilo poderia ser prejudicial aos negócios, entregara o jogo no tribunal, expondo a falcatrua de Fox. Recentemente, um jornalista teve acesso ao que seria a transcrição oficial do depoimento — e a história tem se mostrado bem diferente: Eisner teria, em parte, acobertado Fox.  

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Essa série de televisão que anda ganhando todos os prêmios, Mad Men, para quem não sabe, foi levemente inspirada numa fracassada tira de jornal da década de 60.

30 de julho de 2010

Minha pequena búlgara

Uma das grandes decepções que eu tive nesta vida veio da pintura aborígene australiana. Não que eu esperasse muito, mas até ter a chance de visitar museus e galerias de arte, me atraía a junção das cores quentes (do sertão australiano) em composições pontilhistas simples, de grande efeito visual, algo entre o figurativo e o abstrato. A decepção veio exatamente quando eu aprendi mais sobre o aspecto figurativo e descobri que o mesmo círculo que nesse quadro é uma reunião, naquele é um billabong (poço), no outro é um canguru; as mesmas três ondinhas que aqui são um riacho, ali são fumaça e acolá são um filete de sangue. Significado demais para pouco símbolo.

(No duro, eu sei que grande parte da minha decepção vem do fato de eu ter sido educado nos moldes da filosofia ocidental, separando sujeito e objeto; símbolo e significado. Arte, para mim, é apenas arte, e não essa mistura de arte, história, narrativa, religião, magia e ciência que é para os aborígenes australianos.)

Penso na maneira como os aborígenes australianos interpretam seu entorno quando vejo minha sobrinha de pouco mais de um ano aprendendo a falar. Ela faz com a fonética o que eles fazem com tintas. Ta é qualquer animal verde ou marinho. Abu é qualquer coisa arredondada ou vermelha. Iaiá é água ou, usado interrogativamente, uma pergunta se vamos passear. Papa é comida — ou qualquer outro significado não coberto pelos anteriores. Porque além disso, todo o resto são resmungos ou risinhos, sons que até o mais letrado & hirsuto acadêmico também emite.

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Hoje em dia, sua principal atividade é constranger os pais tropeçando sobre castelos e outras edificações suntuosas erguidas na areia do parquinho por crianças apenas um pouco mais velhas. Sua primeira atividade é encher uma caneca e virar em cima da cabeça.

21 de julho de 2010

Aos 30