(Conforme prometido…)
Quando comecei a leitura de Maria Erótica e o Clamor do Sexo, esperava que fosse uma sequência de A Guerra dos Gibis, narrando as dificuldades da implementação de uma indústria de histórias em quadrinhos no Brasil, onde os problemas iniciais (preconceito contra novidade, inimigos comerciais e políticos, falta de insumos durante a guerra) seriam substituídos por problemas típicos do período que cobre, 1964-1985, entre eles a censura.
Gonçalo Junior fez mais do que isso: escreveu quase um dossiê sobre as complicações de se publicar erotismo no Brasil, com foco específico nos anos da ditadura militar. A publicação de quadrinhos eróticos dispara, mas não conduz o assunto ao longo de todo o livro.
Originalmente pensado como dois volumes, Maria Erótica foi publicado como um só livro no qual há claramente duas histórias fechadas: o surgimento e a queda da Edrel e Grafipar, editoras que tematizam cada metade da leitura: as dificuldades impostas pela censura e, paradoxalmente, as dificuldades advindas da abertura. O livro não ficou nem pesado, nem mais caro do que seriam dois volumes, nem heterogêneo — e há um gancho e claro fio condutor da primeira para a segunda parte: Claudio Seto, que participou de ambas como artista e editor.
A primeira metade é densa. Para contextualizar a criação da Edrel por Minami Keizi, o texto passeia pelos problemas da integração & adaptação dos imigrantes japoneses no interior de São Paulo (desmentindo a tese de que “o Brasil receber bem qualquer um”, em face das hostilidades), pelos problemas de distribuição de impressos fora das capitais e pelo histórico de se publicar erotismo no Brasil; o capítulo Sexo é um Bom Negócio é uma retrospectiva relativamente curta, mas cobre muito bem e coloca em perspectiva o mercado que Minami encararia; a mim, lembrou muito o que Gay Talese fez em A Mulher do Próximo, de forma mais extensa.
O clímax vem perto do final, quando se concentra nos embates da Edrel, já com a produção engrenada, contra o governo. A partir de 1970, a leitura é dolorosa como o terço final de O Anjo Pornográfico, pois não há redenção: somente proibições, recolhimentos em banca, burocracia insana. Incrível como Minami Keizi tinha paciência para fazer o jogo de submeter originais para censura prévia, ressubmeter originais para aprovação, solicitar a resposta sobre edições já enviadas, informar sobre tiragens apreendidas. Foi a primeira vez em que eu vi um livro que explique claramente como funcionava o esquema da censura prévia – ao invés de dizer somente: “a partir de então, os materiais tinham que ser enviados para Brasília para censura prévia”, sem explicar como era essa censura, como era o impacto para o mapa de lançamentos, como eram as negociações, como aconteciam as apreenções, como se as driblava.
A impressão que fica é que ninguém nunca se preocupou em explicar isso no detalhe. Fala-se apenas que havia censura e que isso “amputou o pensamento de uma geração” e só. É como na abertura desse documentário dos Dzi Croquetes, quando um monte de gente diz que “houve o AI-5 e censura e ninguém podia pensar mais nada”, como se tivesse descido um anjo dos céus e invadido a cabeça das pessoas. Maria Erótica explica detalhadamente como a tal repressão se dava, graças aos cuidadosos registros de Minani.
Curiosamente, o mau estar do primeiro volume não é totalmente aliviado pela sensação de liberdade que a abertura dá, no segundo volume. A maneira mais ou menos rápida como se deu a retirada da censura — basicamente entre 1978 e 1980 — acabou criando solavancos para as editoras de sexo então estabelecidas, graças à invasão de revistas baratas que exploravam o filão do explícito.
O grande momento do segundo volume é quando Farid, o editor da Grafipar, o mesmo que anos antes estava em Brasília lutando para fosse possível publicar mais de um mamilo por foto, pede que se gradue a liberalização, para ter tempo de ajustar seu negócio à entrada de novos editores. Ibrahim Abi-Ackel, que sucedeu Armando Falcão no ministério da justiça, estava certo quando disse que a onda inicial de pornografia causaria impacto, deixaria de ser novidade em breve. É de ironias assim que se faz a história, pois nem todos os editores tem sensibilidade para discernir a fina linha entre liberdade e libertinagem, como bem caracterizou Millôr Fernandes: ”uma imprensa que pensa ser liberta quando está, realmente, sendo apenas pornográfica”
O segundo volume se equipara ao primeiro ao delinear como era a vida em Curitiba (sede da Grafipar), como um mascate árabe criou uma editora de expressão e, particularmente, por corrigir a importância da Grafipar para os quadrinhos: eu sempre achei que a grande editora que levantou os quadrinhos nacionais na época da abertura tinha sido a Vecchi: o editor Otacílio descobriu e contratou muita gente, mas a própria migração para Curitiba de artistas como Watson Portela e o volume de páginas compradas por mês indica onde estava a melhor perspectiva de trabalho. A Grafipar organizou e manteve um núcleo de produção maior.
Se o grande problema da Edrel foi a censura, a Grafipar teve que enfrentar a hiperinflação. Ainda que a segunda parte termine com a derrocada da Grafipar, após tentativa de publicação da Penthouse no Brasil, o segundo volume guarda a redenção da abertura: os capítulos finais são um impressionante enfileiramento de fatos que noticiavam a volta da democracia, como se o tal anjo punitivo estivesse sendo banido. Do “tiro no coco” do presidente Figueredo à primeira edição da revista Chiclete com Banana, passando pela primeira Playboy a chegar nas bancas com esse título (ao invés de Revista do Homem), pelo relatório Tortura Nunca Mais e pela tanga do Gabeira, está tudo ali.
É um livro para ficar perto da trilogia do Elio Gaspari, do Pasquim do Sergio Braga, dos relatos de exilados, enfim, da bibliografia essencial – tipo, de indicar na faculdade — para compreender o curto período entre a censura e a abertura, como se perdeu e se retornou à liberdade de imprensa no Brasil recente.