17 de março de 2010

Isso aqui já foi mais animado

Já foi, e talvez eu seja o último a admitir a relativa mudez a que o blogue foi entregue nos últimos meses. Nada a preocupar: não há risco de parar ou mesmo interromper por uns tempos. Mas é preciso alimentar os animais. De modo que resolvi me valer de uma estratégia que nunca imaginei precisar: a reciclagem.

Como houve mudança recente de endereço e as coisas acontecem rápido, selecionei notas de pelo menos cinco anos de idade. Mesmo passando a peneira, ficou um bocado.

 - Três coisas que eu sei sobre Veneza.

- Uma briga de cachorro grande na Renascençailustrada por Ralph Steadman.

- A anãzinha lubrica, hilariante reminiscência de Caio Mourão.

- Para ken kurt Sandman: o Imperador Norton brasileiro.

- Um dicionário de carioquês que circulava na época.

- Pequeno curso sobre pintores venezianos: Canaletto, Pietro Longhi, Bellini, Carpaccio, Tiepolo. E uma escultura.

- O que aprendi com Jules Feiffer e o que encontrei numa edição antiga do álbum Tantrum.

- Hunter Thompson em sete notas e uma digressão: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

- Um ensaio fotográfico com estátuas da cidade do Rio de Janeiro (precisa ser atualizado com as do Caymmi e Cartola)

- O dia em que Diógenes encontrou um homem honesto, um cartum do Jaguar.

- O mapa do comunismo mundial, tal como demarcado em Berkeley, California, em 2003.

- a História dos biscoitos da sorte chineses.

- Um pouco para quem se interessa por labirintos.

- Uma coleção de ingressos de shows em que fui na década de 1990.

- Raro desenho de Will Eisner para publicidade da RCA.

- Clássico: Guia prático para se tornar underground em 5 lições.

Em breve, outra coletânea.

15 de março de 2010

Um laivo

Mais ou menos 20 anos atrás, ler o jornal de domingo era uma das minhas principais maneiras de me manter informado, divertir, saciar a curiosidade — deslumbrar com a linguagem, até. Sem tanta pressão de prazo, era o espaço de matérias longas, crônicas, reportagens que demoraram mais para ficar prontas.

Faz tempo que não leio jornal aos domingos. Já perdi a conta dos anos. Por isso, me supreendo ao encontrar um laivo de inspiração no papel de embrulhar peixes. Recentemente, foi o Daniel Piza em perfil de Manoel de Barros, citando a referência rosana:

Manoel não lembra qual foi o ano em que o leu pela primeira vez, mas lembra bem o título – Sagarana (1946) – e a sensação deixada: “Eu fiquei roseado.” Manoel já era maduro e tinha alguns livros publicados [...]  mas Rosa foi o pulo do sapo.

E subitamente, no meio de um artigo, faz-se a luz. O grifo é meu.

6 de março de 2010

Para quem esteve nos anos 80

Aposto que o Lisandro vai sacar essa e as outras.

1 de março de 2010

Nunca é demais lembrar

(Nada mais apropriado para publicar no dia de aniversário da cidade)

XV Dia Internacional do Bracarense – Jubileu de Cristal do DIB

Então… Reza a cartilha de nossos estatutos com a célebre frase de Buñuel: “La tradición és una estatua que anda”.

A questão é que nossa tradição vem andando cada vez mais.

Em nome dessa tradição milenar é que dizemos, apesar dos pesares, mais uma vez, de novo, agora vai: “Vem aí mais um, o esperado XV DIB, o Jubileu de Cristal”.

Há alguns anos, este magnífico e tradicionalíssimo evento não ocorre exatamente na data original de 1º de março. A data oficial continua valendo, junto as comemorações do aniversário da cidade do Rio de Janeiro. Sendo assim, sem muita enrolação:

A Fundação Para o Dia Internacional do Bracarense tem o prazer de convidá-los para o maior evento anual de todos os tempos:

Dia Internacional do Bracarense – décima-quinta edição – 7 de março de 2010 14 de março de 2010

Em 7 de março de 2010, todos – sem exceção – devem se dirigir a Rua José Linhares, número 85B, quase esquina com a Ataulfo de Paiva, no bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro (Lat:22° 53′ – Long:43°17′ – antiga capital do saudoso estado da Guanabara), Brasil. Sem horário definido, a partir da manhazinha até o fim do dia, o evento contará com a presença de alguns de seus mais ilustres fundadores. Ou não.

Lá, todos desfrutarão das melhores iguarias e dos nectares servidos neste santuário, em total harmonia, alegria e paz. Agradecemos a atenção dispensada.

Site oficial do Bracarense - – não temos nada a ver com isso, ok? ? Mais uma vez é só para informar.

(Mas justo no dia da entrega do Oscar?)

25 de fevereiro de 2010

E se eu matasse aquele personagem?

Edney Silvestre entrevista o LEM.

Não tenho idéia do que é o [sic] lado reverso do amor.

19 de fevereiro de 2010

O carnaval dos significados

Vendo as fotos do carnaval de rua no Rio deste ano, sinto até vontade de ficar na cidade. Sentiria mais ainda se não soubesse dos congestionamentos inescapáveis, das multidões e do cheiro de urina que têm infestado a cidade durante essa comemoração, nos últimos 5 a 10 anos. Nem do calor recordista, superando até Gana. Há fantasia melhor do que o suor?

(Há 20 anos não era costume ficar no Rio; quem podia, viajava — para a região dos lagos, para a Bahia, em seu último suspiro do que hoje sabemos ser a decadência do axé, para onde fosse. Havia blocos tradicionais em Ipanema e no Centro, mas não lembro de gente combinando ficar para o carnaval antes de 2000.)

Soube através da internet que vários blocos entoaram o refrão “Ôôô o Rio de Janeiro é melhor que Salvador”. Dizem as estatísticas que em 2008, pela primeira vez o carnaval de rua do Rio juntou mais gente do que o de Salvador. Não sei como essas métricas são feitas. Em Olinda, onde passei, o frevo mais repetido era um que louvava a cidade, e o segundo dizia na frase final do refrão que o Recife é o melhor carnaval do Brasil. Imagino que cantem algo do mesmo teor na Bahia. Carnaval é bairrismo, sempre foi.

Mas é interessante esse renascimento carioca, ao menos para investigar o que há por trás dele. Olinda é patrocinada por uma cervejaria cujas cores são as do brasão da cidade, que também patrocina o Rio — patrocina exatamente o que? Urinóis públicos? É sempre saudável perguntar quem lucra. Pouco antes de viajar, eu soube de um bloco novo fundado por uma designer de moda, cujos ensaios aconteciam em um clube fechado, com ingressos a preço de boate, frequentados pelo que a mídia chama de gente bonita. Ou seja, sem muvuca, sem pobres, sem mistura: nem o carnaval escapa da eterna segregação social brasileira. Nunca escapou, como os bailes do Municipal ou os camarotes do Sambódromo atestam. Mas convém mantê-lo como símbolo daquela em nome da qual tantos crimes são cometidos, a democracia.

Ano passado, Cecília Giannetti escreveu que o carnaval é onde todos os estereótipos tornam verdade. Estava certa, mas nem isso é suficiente para explicar como é o carnaval.

7 de fevereiro de 2010

IPTU

Semana passada, pela primeira vez, paguei um IPTU. Dá para medir a sua idade pelos impostos que se paga.
Também semana passada, pela primeira vez desde o começo do horário de verão, dei um pulo na praia depois no trabalho — com direito a mergulho e pôr-do-sol, atrás do Dois Irmãos.
O Fabio pode achar o dele caro, mas o meu pareceu estranhamente pequeno depois desta experiência.
5 de fevereiro de 2010

Nunca esquecer de

31 de janeiro de 2010

Melbourne, VIC

Agora, as fotos:

Flinders stationPara começar, uma imagem contextualizada da estação de trens Flinders, um dos marcos da cidade, vista a partir da Elizabeth avenue, no coração do centro da cidade. Se você chega de trem em Melbourne, é bem provável que desembarque nela. Os fios não são da fiação da rede elétrica suspensa, são dos bondes que infestam aquele trecho da cidade. Matthew Flinders foi um navegador inglês que concluiu o mapeamento da costa da Austrália.

EpicureanBom nome para uma loja de queijos e frios no Mercado de Melbourne: O Epicureano. Ótimo lugar para comprar especiarias, carne e peixes ou fazer lanches.

Public baths

Banhos públicos de Melbourne. Um dos motivos para se visitar a cidade é a arquitetura.

San Francisco leva a fama, mas há diversas cidades no mundo traçadas por aprazíveis bondes, como Bruxelas ou Melbourne. Esse é um dos modelos mais novos.

Caminhando pelo centro da cidade, depara-se com prédios de decoração arrojada, sem exageros.

Biblioteca pública La Trobe

Colunas dóricas na fachada central da Biblioteca pública Latrobe. Notar a grama mal cuidada: muita gente leva o take away para almoçar ali diariamente. La Trobe foi um dos responsáveis pela cidade que Melbourne é hoje, ao assinar uma lei determinando uma área verde mínima para cada superfície construída, o que foi fundamental para que se tornasse uma das cidades com mais parques no mundo.

Por essa e por outras, foi merecidamente eternizado em pedra.

Caminhando no sentido de subida da Elizabeth avenue, as ruas vão ficando mais arborizadas e as construções, mais antigas, como essa igreja do século XIX.

Orgulho nacional

Um dos principais pontos turísticos da cidade é a antiga prisão, que encarcerou notórios bushrangers e foras-da-lei desde os tempos da corrida do ouro.

Ambiente acolhedor

Ambiente acolhedor, serviço de primeira

Vista interna do pavilhão principal da prisão de Melbourne. Algumas celas foram reformadas para mostrar como se deu a evolução do sistema prisional: no começo, as celas eram tão estreitas que, depois da reforma, passaram a abrigar apenas um detento no espaço de duas celas originais. Lugarzinho desagradável.

Frenologia, kem kurt

Ned Kelly foi certamente o bandido mais famoso a ocupar a prisão de Melbourne. Dizem os chineses no museu da imigração chinesa que ele desenvolveu a idéia para uma armadura à prova de balas inspirado nas roupas de guerra orientais. Seja como for, foi essa armadura que garantiu sua sobrevivência aos tiros dos policiais, que tiveram que mirar nas pernas para abaterem-no. Com 32 furinhos, foi levado para o hospital da prisão, onde se recuperou, foi julgado e finalmente enforcado. Após a morte, como praxe, foi feita sua máscara funerária, pois estava em voga uma ciência segundo a qual malfeitores teriam certas características físicas precisas, a frenologia. Mas seu castigo mesmo foi ter sido interpretado por Mick Jagger em filme.

A forca na qual balançou o corpo de Kelly ainda pode ser vista (e fotografada) na prisão de Melbourne.

Chocolate e chumbo

O horripilante elmo de Ned Kelly serve para vender balas — inocentes balas de chocolate, na loja de souvenirs da prisão. Também há chaveiros com miniaturas do elmo etc.

Parece Barcelona, mas a mistura entre a arquitetura delirante e a sobriedade da tradição fica no centro de Melbourne.

Não tem errada

Se só puder visitar um museu em Melbourne, nem titubeie: vá direto para a National Gallery of Victoria, em Melbourne: além de uma coleção de arte européia decente, a partir da Idade Média, a galeria tem uma bela coleção de arte oriental logo ao lado, um dos raros museus no mundo onde você pode comparar arte do ocidente e do oriente num piscar de olhos. Quando visitei, a mostra temporária era de cartazes de filmes de Bollywood.

Galerie du Roy, em Bruxelas? Não, é a Royal Arcade de Melbourne. Onde se encontram chocolates igualmente bons.

Detalhe do fundo da Royal Arcade. Atenção ao piso em xadrez e às estátuas dos guerreiros assírios (?), do lado do relógio.

Pista de pouso de nave espacial

Recentemente um portal de notícias australiano elencou os prédios mais feios do mundo. Não se fez de rogado e meteu na lista a Federation Square, praça onde as comemorações dos campeonatos de rugby e futebol australiano aconteceriam se a Austrália fosse um país de terceiro mundo e não tivesse pubs. Desconjuntada, preenchida por prédios esquisitos, é um assombro que mantenham aquela aberração pertinho de pontos de orgulho como a National Gallery ou o MCG.

Mais arquitetura

O Teatro Municipal, então recebendo o festival de comédia de Melbourne (o mais importante do país, uma espécie de festival de Edimburgo só de comédia), fica a um pulo da biblioteca La Trobe, com a qual compartilha a linha arquitetônica.

Qualidade de vida

As principal rua de comércio chama-se Bourke street, batizada segundo um dos primeiros manda-chuvas nomeados pelos ingleses para governar a colônia. É onde pode-se encontrar, lado a lado, os principais magazines australianos: David Jones e Myers. Fechada a carros, só transitam bondes e bicicletas por ela.

Parece um dos prédios do Lido, Copacabana posto 2, ou do Leme? É Melbourne, mais precisamente o bairro de Saint Kilda, balneário no começo do século XX, depois decadente e finalmente revitalizado como local boêmio.

Casablanca, Marrocos? É mais um dos banhos públicos de Melbourne, ainda em Saint Kilda.

Fonte de pesadelos sem fim

Ainda em Saint Kilda ficam os mais tradicionais palcos de shows de Melbourne e um parque de diversões — tinha tudo para ser um mafuá decadente que só sobrevive pela localização, mais ou menos como é o pier de Santa Monica, na Califórnia. Mas surpreendentemente, o Luna Park está muito bem conservado e permanece como opção de lazer para crianças. Apesar daquela entrada, que já deve ter despertado calafrios em muito adolescente.

Prova incontestável

Por pouco Melbourne não se chamou Batmania. Um de seus fundadores, nos tempos da corrida do ouro, era conhecido como John Batman e seria homenageado até mudança de planos. Não foi esquecido, como exemplifica essa placa que prova que, se não se pode com uma cidade, ao menos uma avenida a gente traça.

28 de janeiro de 2010

R.I.P. Salinger

Poucos autores têm tanto prestígio entre o pessoal de blogues, particularmente aqui no Apostos, como Jerome Salinger. Minha impressão é a de um escritor que atropela gostos, manias ou critérios na maneira como agregava admiradores pela internet.

Salinger foi, pela ordem, mal lido — meu pai contou que, já no tempo dele, muita gente dizia ter lido O Apanhador… sem nem conhecer a orelha –, mal compreendido — o uso da linguagem coloquial, próxima ao registro falado, associava-o incorretamente a beatinks; a abordagem do ponto de vista da adolescência e a ótica zen eram desconhecidos e exóticos, na época da publicação –, mal criticado — é generalizadamente associado a coisas como “juventude transviada” e “contestação aos valores pequenos burgueses”, sobre as quais provavelmente nutria horror –, mal editado — por própria exigência, seus livros não podiam ter nada na capa além do título e não carregavam foto do autor na contra-capa — e, finalmente, mal compreendido: não raro, suas excentricidades pessoais tomavam a cena da sua literatura; na falta de mais livros, a impressão é que os jornalistas se satisfaziam publicando fofocas sobre o autor.

Dizem que deixou material inédito, coisa de 15 livros. Onde deve dizer tudo o que silenciou por 40 anos.